quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Mesa redonda no Vozes de Mestres - CCBB Itinerante 2009 - Natal

eu, Lira Marques, Frei Chico, professor Deífilo e Egberto Gismonti, em foto de Diana Gandra

A mesa em Natal foi de lascar! Fiquei muito alegre. Especialmente com a presença de Lira Marques, artesã, cantora e pesquisadora, nascida em Araçuaí, região média do Vale do Jequitinhonha, minha terra natal. Quando estava anunciando os nomes, me lembrei de uma canção que diz: "flor de lis, flor de lira, por que será que lira gira?", ouvida num dos meus históricos Festivales (Festa da Cultura Popular do Vale do Jequitinhonha), nos idos da minha juventude.

Lira Marques é, junto com Frei Chico, umas das fundadoras do Coral Trovadores do Vale, pioneiro na pesquisa e no registro de cantigas da cultura popular do Vale do Jequitinhonha, região (de quase 90 cidades), situada ao norte/nordeste de Minas, em pleno sertão das geraes. O Trovadores foi estrada trilhada por muitos corais e artistas que até hoje nascem e atuam na região, no Brasil e no mundo...

"Eu cheguei em casa eufórica: mãe!, o padre está cantando na igreja as cantigas que a senhora canta aqui em casa!", disse Lira na época, feliz da vida. Lira Marques trabalha com cerâmica, desenhos e pedras coloridas. Faz especialmente seres oníricos que ela chama de "meus bichos do sertão". Começou cedo, utilizando a cera de abelha que o pai usava para fabricar sapatos, e, hoje, sua obra já ultrapassou as fronteiras do Vale do Jequitinhonha, ganhando o Brasil e até o exterior.

Já o missionário franciscano holandês, radicado no Brasil, Francisco Van der Poel, o Frei Chico, diz que a gente tem que começar do que o povo já tem. "Ao todo, foram mais de 15 mil folhas registradas com coisas do povo", comenta enfático. Ele está finalizando o "Abecedário da Religiosidade Popular - Vida e Religião dos Pobres no Brasil", de sua autoria, com 8.500 verbetes, que sintetiza as conexões que o povo estabelece com a fé.

O professor Deífilo Gurgel, maior folclorista vivo do Brasil, trouxe para a conversa um nome da maior importância para a história da identidade cultural brasileira: Mário de Andrade. "Poderíamos falar que Mário é a síntese, mas, para falar a verdade verdadeira mesmo, temos que dizer que Mário de Andrade é a própria cultura brasileira".

Professor Deífilo disse que o folclorista é acima de tudo um bom contador de causos. Contou para a platéia uma história de "dívida com o diabo", recorrente na cultura popular e muitíssimo engraçada, que é o motivo das risadas na foto acima. "A cultura popular é coisa muito séria. Ainda vou ver lá de cima, quando eu me encantar, a cultura popular sendo valorizada e estudada com afinco", arrematou.

"O que eu acho mais bonito é que o Vozes de Mestres vai andando pelo Brasil plantando sementes de amizade e reverência", confessou Egberto Gismonti. Gismonti avalia que a reverência precisa de educação. "Para pegar o gosto pelo Brasil e gostar de ser brasileiro é preciso pedagogia adequada desde os quatro anos de idade pelo menos. Para que a gente tenha o guardião que a gente quer e deseja, é necessário que a educação e a cultura sejam pensadas e executadas juntas e de fato", conclui.

Esse assunto, a cultura de mãos dadas com a educação e vice-versa, esteve presente em todas as mesas, desde Ouro Branco/MG, em julho desse ano, quando iniciamos as atividades do festival. É URGENTE fazer alguma coisa urgente! É ÓTIMO que a gente faça! O nosso fazer é o Vozes de Mestres!!! Essa é a nossa contribuição. Para 2010, podemos aprofundar (ainda mais) em nossas atividades os laços de amizade entre cultura e educação, com certeza... Afinal, eles são inquebrantáveis...


VOZES DE MESTRES - SEMINÁRIO
O seminário "Brasil: quem somos nós? E como chegamos a ser o que somos...?" cria raro lugar para a voz dos mestres de ontem, hoje e amanhã, promovendo encontros e conexões não menos raras. Quanto mais vivemos, mais descobrimos que tudo nessa vida é herança. Diz a canção do mestre Gonzaguinha: "Toda pessoa sempre é marca das lições diárias de outras tantas pessoas". Hoje andarilho sedento, amanhã fonte que saciará a sede de muitos. Assim foi. Assim tem sido. Assim é a humanidade "desde que o mundo é mundo", como dizem os antigos. Os saberes vão passeando de mão em mão, de gente em gente, de geração em geração. Criar um espaço para ver o Brasil passar fervorosamente, sem parar, é o que nos levou a "inventar" essa oportunidade de ternura e troca tão necessárias para curar a infeliz aspereza dos dias atuais...

Déa Trancoso a serviço do Festival Internacional Vozes de Mestres - CCBB Itinerante 2009, dia 11 de novembro de 2009, 19h, no Teatro Alberto Maranhão, em Natal/RN.

Um comentário:

monica disse...

Que mesa é essa Déa de meu deus??!!!!
Maravilha de ler o texto e ver a foto!!!
Acompanho tudo q vc faz e é com muito amor!!!
do meu coração pro de vcs,
monica
beijos e sorrisos