quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Projeto "Caminhos do Jequitinhonha"

CRÍTICA LIVRO

“A grande dor do homem, que começa na infância e prossegue até a morte, é que olhar e comer são duas operações diferentes.”

Simone Weil

Quando menino, levado por pai e mãe, freqüentava a igreja. Da atmosfera, toda a minha atenção. Do rito, quase nada, mas, deste quase, uma só frase me dizia: “Ele está no meio de nós”. A frase era senha de despedida, logo toda a gente se retirava, eu me lembro do silêncio que nos acompanhava até a saída, um silêncio que eu não sei até hoje se era de fora, se de dentro. Só sei que dentro de mim eu levava a frase, que comigo ficava, só ouvidos, mas inquieta, sentida sem sentido, o som desencarnado ainda.

Da frase, que guardo até hoje, me recordei ao deitar os olhos na beleza toda de livro que é o “Estórias de Luz”, de Marcelo Oliveira. O nome é justo e honesto e cumpre o que promete. Pois o fotógrafo grava em luz o que os olhos vêem e o coração sente. Paisagens, coisas e gente, gente, coisas e paisagens são presenças emprenhadas de substância. Marcelo ilumina estórias em que tudo se narra por um olhar que traduz contato em encontro, pois é olhar permeado pelo afeto e decantado pelo tempo: tempo real e subjetivo de vivência e convivência do fotógrafo e do ser humano com as paisagens, as coisas e as gentes do Vale do Jequitinhonha, nas Minas Gerais.

O olhar ligeiro não considera, não guarda, não apreende de cor, não se põe “entre”. Daí a beleza própria às imagens que não foram simplesmente [re]colhidas, mas pacientemente plantadas e [a]colhidas. Elas nascem de um “estar entre”, que só a fotografia pode proporcionar, pois o olho do fotógrafo é corpo desencarnado que, para ser preciso, precisa encarnar no que vê.

Para esse olho que simultaneamente olha de fora e vê de dentro “a vida não é só isso que se vê / é um pouco mais...”. Incorporar este “a mais” à imagem é desafio ético e poético: o vão que separa o olho do mundo não pode, nem deve, ser transposto: sua profundidade exige respeito e suas profundezas, consideração. Na plenitude e abertura à este vazio, o olho que fotografa deve conscientemente se instalar. Habitando este “não lugar”, tudo que separa torna-se caminho. E o caminho, assim como o vazio, está no meio de nós.

Raul Motta
Professor de artes/Rio de Janeiro

NOTA - O livro "Estórias de Luz - narrativa fotográfica do Vale do Jequitinhonha", do fotógrafo-documentarista Marcelo Oliveira, é fruto do projeto "Caminhos do Jequitinhonha", vencedor do Programa BNB de Cultura 2006 (área Artes Visuais - Fotografia), patrocinado pelo Banco do Nordeste. O livro tem o patrocínio também da Vivo e da Cemig.

A exposição "Caminhos do Jequitinhonha" passou por várias cidades do Vale do Jequitinhonha (Diamantina, Itamarandiba, Minas Novas, Bocaiúva, Capelinha, Araçuaí, Capelinha, Salinas, Almenara, Rubim, Serro, Jequitinhonha, Chapada do Norte, Carbonita, Jacinto e Itinga). Foi convidada para integrar a programação do projeto "Vozes de Mestres"/CCBB Itinerante, com patrocínio do Banco do Brasil, em seis cidades brasileiras (São Luis do Maranhão, Joinville, Florianópolis, Curitiba, Natal e Belém), e para o projeto "Conexão Vivo", passando por quatro cidades mineiras (Governador Valadares, Montes Claros, Resende Costa e Belo Horizonte).

O lançamento do livro acontece em Belo Horizonte, dia 5 e dezembro, na Status Livraria Café Cultura, 11h, com a presença do Coral Araras Grandes, de Araçuaí.

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